quarta-feira, 28 de setembro de 2011

.Este ano, é ano de EXD!



.«A Expermenta Design (EXD), bienal de Lisboa, tem no mês de Setembro a sua nova edição subordinada ao tema Useless. De 28 de Setembro a 27 de Novembro, exposições, intervenções urbanas, conferências, debates ou cinema, em diversos locais da cidade, questionam a ideia d uso e do sem uso, do útil e do inútil, facultando novas percepções sobre o que produzimos e o que consumimo, porque o que fazemos e como.»

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

.P3

.Hoje nasceu este projecto P3 PARABÉNS!
Explorem! Fica o convite... ( :

Tratamos tudo por tu from Público P3 on Vimeo.

«O P3 nasceu para todos os jovens (e não só) que se encontram afastados dos órgãos de informação por não se reverem nos temas tratados. É um site de informação generalista produzido por uma equipa que concilia a experiência jornalística do PÚBLICO com a ousadia dos estudantes da Licenciatura e do Mestrado em Ciências de Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A nossa preocupação é que este site seja feito por jovens e para jovens.»

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

.Júlio Resende



.«Que imagem gostava de deixar de si? Eu já ficava muito contente se dissessem: "O fulano foi um teimoso, pintou até ao fim." Que dissessem que sou uma pessoa que acreditava nos outros, porque acredito. E por isso é que criei aqui este Lugar do Desenho. Para que as pessoas se possam inquietar um pouco com o dia-a-dia, falar uns com os outros, pôr as questões, sem se esquecerem que isso é uma questão de responsabilidade. Essa foi a ideia que quis deixar.»

domingo, 11 de setembro de 2011

.Há 38 anos foi assim...


.Salvador Allende, Presidente da República do Chile

.Já passaram 10 anos dos atentados nos Estado Unidos da América, hoje a telivisão será invadida por imensas reportagens e imagens.
E eu pergunto, e o que aconteceu há 38 anos atrás? Alguém se lembra?

Há 38 anos, morria Salvador Allende, no Palácio de La Moneda, Santiago do Chile, cercado e bombardeado pelas tropas rebeldes de Pinochet, que eram apoiadas pelo Nixon (presidente dos Estados Unidos da América). Para não variar a história repete-se sempre, e lá estão os Estados Unidos da América a lutar, desta vez, contra a "via chilena para ao socialismo", apoiando um dos grandes ditadores do séc.XX.

Em suma, actos como este não podem ser simplesmente esquecidos, tal como homens como este não lhes podem silenciar o nome!

Salvador Allende, visceralmente democrata e irredutívelmente anti-totalitarista, é uma cara lavada do socialismo.
Amigos!: falemos, hoje pelo menos, de Salvador Allende!
Ele existiu e ajudemos a sabê-lo, porque é a prova de que a justiça social não é impossível!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Nostalgia da década de 90: Bill Clinton e Monica Lewinsky


Há pouco, li um artigo que mudou a minha vida, em parte porque durante os 30 minutos em que redijo este texto, podia estar a fruir da minha juventude, no clube de chinquilho da minha freguesia. No artigo podia-se ler que “segundo um estudo norte-americano, o músculo mais forte do corpo humano é a língua”; e, por difícil que seja de acreditar, assim que li estas linhas, dei por mim a iniciar-me na nobre arte da formulação de teorias de conspiração. Em oposição à opinião generalizada da população, este não é um passatempo de todo inusitado, visto que, um pouco por todo o mundo, são organizados congressos de crentes nas mais burlescas teorias, desde a de sermos governados por uma raça de lagartos transfigurados, até à de sermos descendentes de organismos intergaláticos. Porém, como me tomo por uma pessoa modesta e despretensiosa, decidi encetar a minha lide de conspirador com um devaneio mais simples, algo que possa conter, embora em doses vestigiais, o mínimo de plausibilidade, um conceito nada caro aos teórico-conspiradores mais ortodoxos. Corajosamente, desvendar-vos-ei a verdade por detrás de um dos escândalos sexuais mais célebres da História: o de Bill Clinton com Monica Lewinsky. Este caso teve enormes repercussões a nível político e social, mas também, e sobretudo, a nível semântico, sendo redefinidas as fronteiras de pecado original, ao excluir-se o sexo oral do conceito de relacionamento sexual, e da palavra Lewinsky, até então um mero nome próprio, e que com este escândalo logrou assinalar o seu nome nos anais da sinonímia, especialmente aquela que envolve flectir os membros inferiores. Preciosismos de análise aparte, centremo-nos na narrativa dos acontecimentos, de inegável fidedignidade histórica, que vos vou reportar. O caso passou-se assim: Certo dia, pouco tempo antes da chegada do Presidente, Mónica Lewinsky navegava pela internet. Trabalhadora empenhada e incansável, esforçava-se sempre por evidenciar aos seus superiores o quanto era uma mulher sofisticada e ávida de novos conhecimentos. Com esse objectivo, lançava-se em longas horas de pesquisa cibernáutica, em busca de algo relevante, ou simplesmente curioso, que pudesse comentar com dissimulada espontaneidade, quando uma chefia se encontrava perto dela. Não nos esqueçamos que, na época, a internet não era uma figura omnipresente na nossa vida quotidiana e, consequentemente, quem citava os mais recentes e extravagantes estudos científicos passava por um fiel leitor de publicações da especialidade. Nessa esperança, no momento em que o Presidente passa junto dela, Monica comenta jovialmente: − Senhor Presidente, sabia que a língua é o músculo mais forte do corpo humano?
− Desculpe, Monica, não percebi o que disse – declara Clinton, espantado com a interpelação.
− Perguntei-lhe se o senhor Presidente sabia que a língua é o músculo mais forte do corpo humano – confirma a secretária.
Clinton faz um compasso de espera e questiona-a trocista e desafiadoramente:
− Tem a certeza, Mónica? Asseguro-lhe que o meu corpo possui um órgão mais forte do que a minha língua.
− Não creio, senhor Presidente. A fazer fé neste estudo, o que afirma é impossível.
− Esse deve ser um daqueles estudos europeus sem qualquer fundamento. Mas se insiste, tenho de a convidar a seguir-me até à sala oval, para pôr fim a este impasse no conhecimento científico – sugeriu Clinton, com maliciosa solenidade.
De resto, não haverá nada de novo que vos possa contar. Resumidamente, Clinton foi flagrado numa disputa anatómica com a sua secretária, uma espécie de braço de ferro sem braços, onde Monica porfiava por fazer ver ao Presidente que a sua língua era mais forte do que o outro membro a concurso. Depois vieram os tablóides, os vexames, os pedidos de desculpa públicos e uma mancha inapagável na carreira política de Bill Clinton. Só hoje, na posse destas novas informações, podemos compreender o quão precipitados e errados foram os nossos juízos. Um acto que atribuímos à libido insaciável do Presidente e à infame permissividade moral da sua secretária não passou, na verdade, de uma tentativa conjunta de desfazerem um equívoco científico, dando um inestimável contributo para a humanidade… Que ingratos que fomos!
P.S. Os leitores mais atentos devem já ter reparado que alguns dos acontecimentos narrados não condizem com a veracidade dos factos verdadeiramente ocorridos. Por exemplo, não há memória de que os envolvidos alguma vez tenham sido apanhados em flagrante. Ainda assim, rogo-vos que me perdoem, em primeiro lugar, porque se trata de uma teoria da conspiração e, por definição, a história deve gozar de uma verosimilhança apenas aparente; em segundo lugar, porque, ao escrever um texto deste teor, arrisco-me a descredibilizar outras publicações ditas mais sérias, que venho escrevendo… Mas, enfim, também destas ideias tresloucadas, escritas pela madrugada dentro, se faz o mundo.
A todos uma óptima noite, vou descansar.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Aquele querido mês de Agosto

Agosto é um dos meses emblemáticos da história da União Soviética e dos ditos países de influência soviética. Os anos de 1968 e 1991 são exemplos históricos elucidativos da tremenda crise ideológica, económica, partidária, política, militar e, com efeito, social que entranhava o socialismo real. O que fez o sistema comunista cair? Vários mecanismos inerentes ao próprio sistema comunista!


Um desses mecanismo, que é pouco frisado, como responsável na queda do regime comunista é o Centralismo Democrático e o papel dominante do partido à frente do Estado. Efectivamente, o Centralismo Democrático é uma forma de organização vital para uma "tomada de poder", pois permite aglutinar um conjunto de indivíduos organizados, disciplinados, coeso e com grande sentido de classe com vista a concretização de projecto socialista/comunista. Nesta forma organizativa a discussão, a reunião e o debate são uma constante quotidiana. Todavia, se na "tomada de poder" o Centralismo Democrático é consequente e incisivo, a frente de um Estado tal teoria tem um potencial melindroso. A história do comunismo contemporâneo atesta tal facto, pois depois da "tomada de poder" os vários partidos comunistas foram diminuindo a capacidade de diálogo interno, a democracia partidária enfraqueceu, aumentou o fosso entre as populações locais e os dirigentes do partido, a burocracia estatal-partidária aumentou, o charme do ideal desapareceu e perante a discórdia a repressão/invasão era o caminho. O partido e seus dirigentes continua intitular-se como a vanguarda da classe operário e dos trabalhadores, no entanto os trabalhadores, inclusive a classe operária, deixavam gradualmente de se rever no partido. Sem embargo, a análise teórica da realidade cessou, o marxismo que é, acima de tudo, uma ideologia contra estaticismos ficou estático naqueles anos. Em 1919 um importante marxista alemão, Karl Kautsky, vaticinava tal facto (A Ditadura do Proletariado):
«A luta de classes proletária, enquanto luta de massas, pressupõe democracia... As massas não podem ser organizadas secretamente, e acima de tudo, uma organização secreta não pode ser democrático. Conduz sempre à ditadura de um único homem ou de um pequeno grupo de líderes. Os membros vulgares só podem tornar-se instrumentos para executar ordens. Um método destes talvez seja considerado necessário para uma classe oprimida na ausência de democracia, mas não iria promover a auto-governação e independência das massas. Em vez disso, aumentaria a consciência messiânica dos líderes e os seus hábitos ditatoriais».


Por fim, um dos próprios méritos do regime comunista foi também um dos seus coveiros: a educação. Os regimes comunistas empenharam-se, - de forma triunfante é preciso dizer -, na alfabetização das suas populações. Desse modo o analfabetismo acaba por adelgaçar drasticamente. Com efeito, o número de indivíduos com um curso superior aumenta bruscamente, ou seja, o regime comunista é responsável pela produção de uma ampla massa intelectual, permitindo uma tremenda mobilidade social. Parafraseando o crítico soviético Alexander Zinoviev, «a revolução acabou por produzir alterações. Vejamos a minha família, que eram camponeses. Como resultado da colectivização da agricultura, os meus pais perderam tudo o que tinham. Mas o meu irmão viria a ser gerente de uma fábrica; o segundo mais velho chegou a Coronel; três dos meus outros irmãos formaram-se como engenheiros; e eu tornei-me professor na Universidade de Moscovo. Ao mesmo tempo, milhões de camponeses russos receberam uma educação formal». É dessa nova massa intelectual que emergem os críticos, e futuros reformadores , do sistema comunista (tal como Zinoviev).


Hoje em dia está mais que confirmado que não foi a crise que originou uma profunda reforma no sistema, mas sim o contrário, a reforma do sistema desencadeou a crise final do regime. Portanto, muitas ilações o movimento marxista deve tirar dos Agostos de 1968 e 1991.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Londres: O Cenário de uma Novela Psico-Nacional


É uma tarde, quase noite, igual a tantas outras. Ao passarmos pelo móvel, carregamos, despreocupadamente, no botão do televisor e ligamo-nos ao mundo com a mesma leviandade com que se traga uma azeitona. Neste momento, já nem nos recordamos do gesto, pois o nosso mais novo começou a esbracejar, redondo no chão, a emitir um sonoro silvo, digno de ombrear com a mais potente das sirenes fabris, da era da revolução industrial. Fá-lo, não porque tenha nostalgia alguma dessa época – aliás, nem tão pouco sabe o que foi, uma vez que os seus três anos de idade ainda só o versaram em papas infantis e desenhos animados – mas porque sabe que, para nos arrancar do nosso frenesim quotidiano, agora traduzido na limpeza do louceiro da sala, na família há já quatro gerações, é necessário algo de genuinamente irritante, só ao alcance dos nossos mais novos concidadãos. Infantil ou não, o certo é que resultou e viramo-nos já na sua direcção. Porém, durante este movimento, lançamos um olhar de soslaio à televisão: “Na última noite, Inglaterra registou vários focos de revolta. Milhares de jovens amotinados destruíram e saquearam viaturas e estabelecimentos, em várias cidades da ilha britânica” – anunciava. O nosso filho, ao qual há um instante acorríamos apressadamente, foi relegado para segundo plano. Ele continua a articular algumas palavras, que não conseguimos compreender. Na verdade, já nem o escutamos. Impelidos por um sentimento indefinido, remexemos nervosamente a gaveta onde está o telecomando e retiramo-lo atabalhoadamente. Já na sua posse, certificamo-nos de que nos encontramos num dos quatro canais generalistas. – Talvez não… − pensamos, esperançados. Provavelmente, quando menos esperarmos, todo este aparato será interrompido por uma equipa de investigação criminal, com agentes de corpos esculturais; ou por uma equipa de emergência médica, composta por profissionais cuja vida amorosa apenas rivalizaria com a dos intervenientes dos romances de cordel vendidos em fascículos, os mesmos que durante anos fizeram as delícias das donas de casa portuguesas. Contudo, estas personagens demoram a irromper no ecrã e a estranheza não tarda a dar lugar á apreensão: ao carregar no telecomando, tomamos consciência de que não estamos sintonizados num canal temático. De seguida, olhamos o relógio. Marcas as vinte horas e dois minutos: não restam dúvidas, estamos a assistir ao Jornal da Noite. A par desta revelação desedificante, o nosso filho continua a dizer qualquer coisa, à qual nós respondemos com maquinal assentimento, oscilando afirmativamente a cabeça. O aparente desinteresse com a nossa prole é justificada, dado que estes acontecimentos não são de somenos importância. A frugal Inglaterra está a ferro e fogo! Bem, será que são, de facto, em Inglaterra? É isso! Lemos mal, só pode ser isso. Se voltarmos a ler o rodapé, decerto encontraremos “Paquistão” ou “Irão”, onde julgámos ler Inglaterra. Não queremos com isto dizer que não são pessoas como nós, mas, sabem como é, a cultura é diferente: as barbas fartas, os fanatismos religiosos, a inveterada tendência para fazerem atentados e a devoção por desfiles de massas em ruidosa ovação a mártires suicidas são elementos que não inspiram simpatia na nossa humanidade moderada, do emprego das nove às cinco, do conjugue e dos filhos sorridentes, das idas semanais ao centro comercial e da família reunida em torno da mesa, numa data festiva cujo verdadeiro significado desconhecemos. Nós até os respeitamos, mas eles não querem tomar parte do nosso idílio ocidental e recusam a evangelização civilizacional, que com tanto esforço empreendemos sob a forma de guerras solidárias nos seus países. Em suma, são uns ingratos! Não nos interpretem mal, não somos racistas – em parte, porque a sociedade não o aceita – todavia não nos peçam que olhemos com compaixão as notícias de mortes às centenas, registadas quase quotidianamente por esses lados e que sorrateiramente assomam às nossas casas, no maçador meio do telejornal. Se não julgássemos ter lido Inglaterra, ao invés de um qualquer país terminado com uma vogal nasal, a única emoção de consternação, que nos percorreria, seria relativa aos copiosos flocos de pó, polvilhados sobre o louceiro da sala, aos quais o nosso mais novo é alérgico, coitadinho. Ainda assim, pelo sim pelo não, mais vale desfazer de vez o equívoco e fitarmos de novo o televisor. Depois, apenas o choque. Uma injecção de adrenalina invade-nos o organismo e um frio gélido petrifica-nos os músculos. Ao longe, o nosso mais novo, o Sebastião, não sei se já tinha referido o nome, chama-nos incansavelmente. – Cala-te – vociferamos, sem réstia de doçura na voz, enquanto, no televisor, a imperial Inglaterra é palco de uma insurreição urbana sem precedentes. Volvidos alguns segundos, voltamos a nós e sentamo-nos no sofá a escutar atentamente o que se passa. Os nossos ouvidos agarram a informação sofregamente: “lojas pilhadas, casas assaltadas, carros a arder, barricadas nas ruas…”. As notícias chegam-nos como fragmentos, que a nossa mente não consegue cerzir, para lhes dar um fio lógico. Entretanto, somos de novo assaltados por um dilema bem Hollywoodesco: quem é que são os bons e os maus? Se há algo de pedagógico em Hollywood, é o terem-nos ensinado a tomar partido: de um lado estão os benfeitores, pelos quais torcemos, e do outro os malfeitores, sempre justamente punidos, no final do episódio. Mas Hollywood é uma indústria generosa, conduzindo-nos docemente ao lado dos justos. Agora, pelo contrário, vinga a indefinição. Se, por um lado, uns sustentam estas acções nas duras condições de vida, em que eram mantidos, outros, por seu turno, advogam tratar-se de violência gratuita, despojada de qualquer raiz na austeridade. Ai! Como detestamos a indefinição…E nós para aqui, no sofá, a agonizar neste leito de hermafroditismo social… Que paciência! Mas eis senão que chega, em sebastiânica aparição, o comentador televisivo. – Alvíssaras! – exclamamos em transe. O Sebastião observa-nos, atónito. Mas a reacção não é inoportuna: chegou a nossa mais estimada figura da informação portuguesa. Ele está pronto a mastigar-nos a matéria noticiosa – e a defecá-la até, se acharmos necessário – de forma a que não nos importunemos a processá-la; como é sublime o colorido, que os seus comentários categóricos emprestam à imprensa! Dúvidas, interrogações? Tudo é dissolvido num mar de imperturbáveis certezas. Atenção, acabou de surgir o veredicto: em Inglaterra, a violência é puramente gratuita. Terminada a leitura da sentença, recostamo-nos no sofá, com olhar prazenteiro. – Como é agradável escutar estes senhores – suspiramos. Desde que tínhamos começado a acompanhar os canais de notícias 24h, onde pontifica um comentador a cada dez minutos, já não necessitávamos de tomar os sais de fruto e mesmo o nosso mais velho, o Martim, à época atormentado por cólicas, pôde deixar de tomar as gotas, tamanho era o efeito terapêutico destes novos senhores da ladeira. Agora, retomemos ao nosso calvário interior, pois aqui estamos nós, enfim mergulhados na convicção de que aqueles gaiatos de Inglaterra não passavam de indigentes e milionários sádicos, em busca de ocupação. Ao sabê-lo, a nossa mente cristã, com baptizado, crisma e demais cerimónias da antologia festiva da religiosidade, começa a congeminar coisas das quais não nos orgulhamos, nem ousamos confessar aos nossos amigos, ainda que o nosso juízo seja bem claro: “Porrada neles!”. A polícia não é suficiente, chame-se o exército; os sublevados comunicam pelas redes sociais, sejam suspensas; os jovens têm demasiada liberdade, sejam-lhes controlados os passos; bandos organizados de cidadãos organizam-se em milícias populares, a fim de proteger os seus pertences? Que sejam armados, para restabelecer a ordem. O quê? Na sua maioria, esses indivíduos integram grupos de extrema-direita? Não nos recordamos de termos ouvido isso na televisão, é decerto especulação e é preciso conter esta onda de violência a todo o custo, pelo que os fins justificam os meios. Ainda na sala, depois de enunciarmos em surdina este punhado de soluções por atacado, levantamo-nos e dirigimo-nos, de novo, ao louceiro. Ao chegarmos junto dele, percorremo-lo com o olhar: séculos e séculos de porcelanas e cristais ordenados por cronologia e estilo. Durante o périplo pelas peças em exposição, o nosso olhar esbarra num reflexo e vemos o nosso rosto espelhado num açucareiro do século XIX. Gradualmente, o reflexo torna-se também interior, o nosso olhar torna-se vago e pomo-nos a reflectir: somos democratas, disso estamos certos. Não porque alguma vez tenhamos reflectido muito acerca disso. Na verdade, sempre nos conhecemos assim: estrutura mediana, cabelo liso, olhos castanhos… e democratas. Nunca sequer equacionámos aprofundar o conhecimento deste conceito. Que alternativas nos restavam? Mesmo nas festas da alta sociedade, nas quais, enquanto aguardamos pelo acepipe seguinte, cochichamos, sibilantemente, a estima pelos “tempos idos” já não é manifestada de forma explícita. Certa vez, recordamo-nos até de ter ouvido a seguinte admoestação, dada a um folião desconhecedor das novas terminologias do croquete: “Não diga isso, meu caro. Essa posição pode granjear-lhe muitas inimizades. Opte antes por liberal; ser liberal é fashion, ser fascista está démodé”. Memórias aparte, continuamos a afirmar: somos democratas. Quer dizer… Bem sabemos que não somos “democratas praticantes”. Mas, pelo menos, marcámos presença num ou outro sufrágio – aos do aborto, por exemplo, nunca faltámos, se bem que, em parte, por recomendação do prelado da nossa paróquia. Na nossa perspectiva, isto da democracia é como uma inscrição no ginásio: a início, estamos empolgados com a prática de exercício físico, em virtude do que somos presença assídua; mas, passadas algumas semanas, o afinco esmorece e, apesar de continuarmos a pagar a mensalidade, nunca mais lá voltamos, ou como se diz em democratês: engrossamos a taxa de abstenção. Ainda assim, mesmo após expormos os nossos vícios, professamos a nossa democraticidade. Estamos tão crédulos disto como o Sebastião está de a mãe ter enlouquecido a olhar para uma peça de mobiliário. No final deste exorcismo espiritual, temos de o levar de imediato ao psicólogo, ou nunca recuperará deste trauma. Findo este pensamento, o nosso olhar descai para uma manteigueira do século XVIII e damos, de novo, de caras com o maldito reflexo, uma espécie de agente cerâmico da ponderação. Olhemos para nós, façamo-lo atentamente. Na televisão, o primeiro-ministro britânico, James Cameron, aventou a hipótese de suspender as redes sociais, em tempos de crispação social, e nós não só anuímos, como achámos a ideia brilhante. Agora que reparamos, esta acção é uma enorme afronta para a liberdade expressão. Fez-se luz! E o multiculturalismo, fomos dele alguma vez partidários? Estamos agora conscientes de que não. – Querem vir para Europa, aculturem-se, rendam-se à sociedade superior. Não se adaptam, sejam arredados para os subúrbios, olhos que não vêem, coração que não sente. Quanto aos meninos de tenra idade, alguns vindos de famílias abastadas, o que é que temos a dizer? A princípio considerámo-los meramente mal-educados, não passavam de meninos ricos e ociosos, a libertar a sua rebeldia e, com efeito, o Estado nada tinha que ver com isso. Mas, mais uma vez, aquele reflexo fez-nos pensar de forma diferente. Só uma crise de valores profundamente instalada poderia dar tais frutos e nessa matéria o Estado tem responsabilidades, designadamente ao nível da educação. Ainda com o mesmo olhar vago, inteiramo-nos dos nossos juízos precipitados. O invólucro do medo distorceu-nos o discernimento e estimulou o que de mais promíscuo e decadente em nós existe. Passada esta conclusão, o nosso olhar continua a percorrer incessantemente as peças do louceiro. Neles, os reflexos sucedem-se, mas não nos reconhecemos em nenhum: temos a face coberta pela vergonha, pelo vexame de termos sido tão facilmente manipulados. Por fim, surge no nosso semblante um sorriso amarelo, acompanhado por um ligeiro contentamento: tirámos esta ilação sem recorrer a nenhum comentador televisivo. Pelo menos, somos originais!
No tapete, o Sebastião está entretido com os seus brinquedos. – Totó – grita, animadamente, empregando um adjectivo muito caro à pequenada, mas também a alguns adultos, que, por conservarem o espírito, o aplicam de modo magistral; e nós coramos, não porque o atributo nos seja dirigido: o totó é, provavelmente, um dos guerreiros de plástico do nosso menino, mas porque sabemos que somos o seu mais merecido destinatário.

sábado, 16 de julho de 2011

O Papel da Esquerda na Era da Cidadania e dos Movimentos Sociais


A actual situação de crise induz na sociedade uma sede de soluções sem precedentes. Pessoas antes cúmplices, ou simplesmente resignadas, com o quadro político nacional, acham-se presentemente inconformadas e crédulas de que é imperativo mudarem a realidade, onde se inserem. Nesta época, por seu lado, os meios de comunicação, sempre atentos aos estados de espírito do seu público, apressam-se a apresentar uma miríade de conceitos pretensamente revolucionários e inovadores, que, após devidamente untados com o óleo da modernidade bafienta, são-nos oferecidos quais pedras filosofais, capazes de tudo resolver. Da convergência destas duas variáveis, uma opinião pública receptiva a novas ideias e uma comunicação social devotada à alquimia, surge a cidadania; e já que este vocábulo ter-se-á instalado no léxico português por tempo indeterminado – que isso da precariedade é lá um problema do mundo laboral, ao qual a linguística ainda parece estar imune – convém dissecá-lo e resgatar da indefinição este termo, que, por tão exposto e enunciado, nos leva a crer na sua real compreensão.
Em matéria de política, sempre que se alude à palavra cidadania, o resultado é inexorável: o debate personifica-se. Espaços outrora reservados ao confronto de ideias e ao esgrimir de argumentos são tomados de assalto por meandros biográficos dos candidatos, argutamente manejados, a fim de criar empatia com os eleitores. O caminho aos idiólatras está aberto! Então, acotovelam-se as personalidades sem sombra de ideário próprio e até aí demarcadas do exercício político. Fascina-lhes somente a projecção pessoal, ficam sideradas com o vislumbre de serem objecto de um culto nacional, em que elas, e não as ideias que corporizam, são adoradas como se de deuses se tratassem. Toda a sua argumentação é sustentada no seu percurso pessoal, o qual, por mais meritório, em nada esclarece o eleitorado acerca das convicções políticas do candidato a sufragar. Esta constatação reporta-nos para uma outra característica da cidadania, frequentemente obscurecida sob o manto da infinita bondade, mas que se manifesta em cada acção dos seguidores desta corrente: o seu amor incondicional à tecnocracia.
Não é raro escutarmos os apelos destas personalidades à unidade nacional ou ao consenso patriótico. Em suma, um governo da nação seleccionado à imagem de um conselho científico, tendo a idoneidade académica e o reconhecimento profissional como únicos e objectivos critérios de ingresso. Tudo seria ideal nesta perspectiva, se a sua análise não versasse sobre política. Por conseguinte, as figuras integrantes deste governo professariam ideias e visões divergentes, o que tornaria impossível a elaboração de um programa de governo. Esta via não só não é parte da solução, como acentua o problema: as más políticas dos anteriores executivos dariam lugar á ingovernabilidade. Claro está que este facto não configura um obstáculo na óptica da escola tecnocrática. Na verdade, a sua concepção de decisão política enquanto proposição objectiva e susceptível de avaliação científica desafia as bases do estado democrático. A democracia caracteriza-se pelo debate plural de ideias, pelas formas múltiplas de abordar uma mesma problemática e pela possibilidade de, em função do seu património teórico, os decisores políticos atingirem os objectivos por meios distintos. Tudo isto é desmerecido pela tecnocracia. A seu ver, o exercício político tem um valor unívoco, que não permite diferentes análises, sob pena de se comprometer a validade formal e académica da decisão tomada. Necessariamente, a cada conjuntura corresponde uma só medida, gerada na isenção do rigor científico, a qual só um louco teria a ousadia de contestar. Como é de prever, esta tese é totalmente falaciosa. A direita, porém, tem escudado todo o seu radicalismo ideológico sob a insuspeita capa do fatalismo científico. Perguntemo-nos: era imperativo, como o governo e o FMI advogam, que fossem os contribuintes a pagar os desvarios do jogo financeiro? Curiosamente, não. Estas medidas são produto do mais primário pensamento de direita, nem objectivo nem científico, mas sectário e radical. Porém, estes e outros conceitos são cada vez mais eficientemente vertidos na opinião pública e, com a população imbuída destas teses, surgem manifestações, em que os objectos do protesto são as instituições democráticas, ao invés dos políticos, cuja linha programática está na génese da convulsão social. O equívoco está instalado e cumprem-se os desígnios da tecnocracia. As medidas draconianas tomadas pelos executivos são acatadas com resignação cristã. Contestá-las equivale a ter a ousadia de questionar o direito da água entrar em ebulição aos 100ºC. Concluindo, a acção política, tal como a ciência, é vista como irrefutável e, nessa medida, incontestável, independentemente do impacto negativo na qualidade de vida dos cidadãos. Actualmente, aceita-se esta premissa como se de um dogma se tratasse. E esgotado que está este alvo de descontentamento, a ira gerada num cenário de crise dirige-se directamente às instituições e à classe política, na sua globalidade. Os partidos são olhados como seres intrinsecamente maus, que corrompem os indivíduos que deles fazem parte; o parlamento, um depósito de gente inútil, obtusa e ociosa, incapaz de os representar – a tecnocracia apoderou-se das ruas e tomou o povo por seu instrumento.
A actual movimentação social tem ainda outra característica rasgadamente louvada em todos os meios de comunicação: a espontaneidade. A meu ver, a espontaneidade não encerra em si nada de bom. Aliás, se me é permitida a analogia, remontemos ao séc. XIX e aos primórdios da luta operária. Um proletariado ainda com métodos de luta muito incipientes, frutos do estádio embrionário do capitalismo, onde se enquadrava, destruía os meios de produção, atacando máquinas e incendiando fábricas. Esta prática ficou conhecida por Luddismo e foi, enquanto metodologia de protesto, criticada por Marx, que a considerava totalmente inconsequente. Via-a como a expressão primária de um proletariado sem coordenação ou vanguarda, que exorcizava a sua legítima revolta através de uma acção que não lhe era útil. A análise aos contemporâneos movimentos sociais, como o 12 de Março, não é muito diferente. O descontentamento existe e compele as populações a manifestarem-se. Porém, a espontaneidade, a falta de direcção e a repulsa por qualquer forma de vanguarda votam estes movimentos á inconsequência. As manifestações e acampadas sucedem-se, a moldura humana é colossal e os índices de mobilização atingem valores estonteantes; mas passado o cenário mediático e finda a manifestação, o que resta é nada, tudo se esfuma e o destino das acções espontâneas está consumado.
Este novo fenómeno social desencadeou, mormente, dois sentimentos díspares no seio da esquerda portuguesa. Uma facção da esquerda, cativa em metodologias em alguns casos extemporâneas, mantém-se indiferente ou hostiliza aqueles que invadem o seu feudo, a sua área de influência; uma outra facção da esquerda rejubilou, cuidou que estávamos a presenciar um passo em frente na consciencialização de massas e olhou com uma esperança desmedida estes novos paradigmas. A verdade é que as conclusões devem ser diferentes e sobretudo mais cautelosas.
Pouco antes das últimas eleições legislativas, compareci numa sessão de esclarecimento político. Conversou-se, discutiu-se, elucidou-se, mas houve um problema – a sala estava quase vazia. A primeira tarefa da esquerda deve ser, pois, pôr termo ao paradoxo, traduzido numa mobilização que é avessa à consciencialização. O movimento pelo movimento é um instrumento de alienação como qualquer outro. Compete à esquerda reabilitar a confiança das populações nas instituições democráticas e afastá-las da demagogia da cidadania e dos falsos consensos. Deste modo, movimentos como o “Democracia Verdadeira, Já!”, vulgo acampada no Rossio, devem-nos inspirar alguma desconfiança. Se é certo que o programa deste movimento revela reivindicações de esquerda, designadamente o protesto contra a presença da troika, por outro lado, o título que lhe serve de mote, “Democracia Verdadeira, Já!”, instala a confusão quanto ao teor do protesto. Quem lê o título, pensa que se trata de um protesto contra o actual modelo de democracia e tal o comprova o facto de muitas das pessoas, que lá se encontravam ostentarem cartazes anti-sistema e anti-partidos. Estar ao lado deste discurso não traz dividendos à esquerda, pelo contrário, favorece o protesto inconsequente e a alienação. Em alternativa, a instauração da confiança nas instituições democráticas deverá ser conseguida através de uma projecção eficaz do trabalho realizado pelos representantes da esquerda em cargos políticos, no plano nacional ou autárquico, demonstrando que é possível os políticos respeitarem e servirem as populações. Em segundo lugar, é imperioso que a esquerda se afaste do estigma do “partido de protesto”, ao qual quer a comunicação social, quer os partidos do arco do poder, sucessivamente a vêm colando. Um partido de protesto resumir-se-ia a protestar, sem ter propostas alternativas credíveis e exequíveis. Sabemos que tal não é verdade e, por isso, devemos tentar, ainda que seja escasso o tempo de comunicação disponível, substituir as palavras de ordem por medidas alternativas, que possuímos e sabemos serem a verdadeira resposta às súplicas da população. Por último, a esquerda não deve temer a criação de clivagens na sociedade. Em certa medida, se somos de esquerda, é precisamente por acreditarmos que a força motriz da história reside na oposição de classes com interesses distintos. De facto, o actual estado de imposta harmonia social, com ecos da lógica corporativista, tenta conciliar o inconciliável e tenta criar uma unidade forjada, sem qualquer razão de ser: os interesses do trabalho e do capital nunca podem ser simultaneamente os mesmos. Apelar à resistência às medidas de austeridade não é insensato, mas racional e responsável. O que é escandalosamente incoerente é procurar unir especuladores financeiros e vítimas dessa especulação, ou formuladores das políticas de austeridade e vítimas dessas políticas.
Em suma, uma esquerda aberta aos novos desafios, uma esquerda que não subvaloriza o carácter dialéctico da História, não deve ignorar os novos estímulos provenientes da sociedade, agora contidos numa nova estética; contudo, não deve encará-los como um produto acabado e demitir-se da sua função de vanguarda, sem a qual todas estas novas acções não terão qualquer reflexo prático.