quinta-feira, 10 de março de 2011

Geração à Rasca

Este sábado, vaticino que o país vai parar, isto sem que o protesto da Geração a Rasca tenha sido de arromba. A comunicação social, com certeza, dará um grande protagonismo ao protesto no sentido de verificar a sua adesão, mas, particularmente, de tentar lançar na "janela mágica" imagens de confusão e desordem, quiça, talvez de blindados do exército...
Seja como for, acho o protesto bastante legítimo, no entanto não posso deixar de ter fortes reservas. Antes de tudo não sei se irei participar nele, - se o for irei como curioso, e não só com o espírito de protesto, pois esse espírito está cá há vários anos e não o encontrei quando meti um "like" ou um "vou participar".
Na minha óptica pretende-se com este protesto exportar o modelo que desencadeou as revoluções no norte de África, numa realidade totalmente distinta da magrebina, como é a portuguesa.

Neste ponto é importante desmistificar as redes sociais. As revoltas que tem ocorridos no norte de África, que agora alastram-se um pouco por todo mundo árabe, foram antes de tudo desencadeadas pela realidade social: forte desemprego numa sociedade fortemente jovem; más condições de vida; a alta corrupção; a exploração; tirania; repressão etc. Em alguns casos até pelo facto de uma ampla maioria xiita ser governada com mão-de-ferro por uma minoria sunita. Estes, de grosso modo, foram os pressupostos vitais para a maré de revolta, no entanto, claro está, que o rastilho foi as redes sociais, pois por algum motivo é que os governos desses países rapidamente decidem proibir o acesso a internet. O caso do Egipto e da Tunísia são gritante, no entanto, apesar da imagem que a comunicação social ocidental construiu de protestes assente nas redes sociais, é importante dizer que no caso da Tunísia, onde tudo começou, o movimento sindical foi, deveras, importante. É ingénuo pensar que os agentes da autoridade aderiram aos protestes com um invento criado no facebook, bem como o próprio exército. As redes sociais foram importantes, todavia, os protestos e estas revoluções não são nada espontâneas, mas sim criadas por um ambiente social concreto, onde o espírito de indignação do ser humano soltou-se. Em suma, as redes sociais foram uma, das muitas ferramentas, para a libertação.

No caso português a comunicação social, pelo menos a que tenho visto, dá grande apoio e visibilidade ao protesto, Geração à Rasca, convocado por facebook, acabando desse modo por alguma espontaneidade. Contudo, quero aqui salientar que a mesma comunicação social não para de dizer que a adesão ao protesto cresce a bom ritmo, estando confirmado mais de 40 mil pessoas. No entanto, causa estranheza o facto da mesma não focar que já mais de 70 mil pessoas disseram que não iam estar presentes na manifestação, cerca de 30 mil meteram um "talvez", e que a dois dias do protesto ainda estão por responder cerca de 400 mil pessoas. Portanto, equancionando o potência da internet e das redes sociais que nos tem vendido nos últimos dias com as confirmações para o protesto, não podemos deixar de concluir que o protesto, porventura, não terá os resultados desejados. Outra crítica à comunicação social é o facto de há anos que se realiza manifestações sindicais e de certos partidos, nomeadamente o PCP, com mais de 60 mil pessoas e umas até com 200 mil pessoas, e o protagonismo que levam na comunicação social é frouxo.
O próximo protesto 19 de Março da CGTP conta, actualmente, com a confirmação de 1 200 pessoas, mas será um protesto com uma maior mobilização do que este protesto de sábado. A importância das redes sociais em protestos é bastante discutível, é o que pretendo dizer no fundo.

Mesmo tendo estas reservas teóricas sobre a importância das redes sociais, concordo com os motivos do protesto, como carrego um estigma de comunista terei aqui deixar umas notas.
Acho que o meio sindical e o PCP olha para este protesto com grandes reservas, pois tal foge ao seu controlo, e é dinamizado por muitos militantes do Bloco de Esquerda, aliás, o BE já confirmou presença no protesto. No entanto, apesar das reservas o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, recentemente afirmou que o partido vai estar na manifestação, tendo sido inclusive convidado a participar. O PCP não mobiliza, mas participa. Mas mais importante ainda, parece-me que o pano do apartidarismo cai, pois nada nesta vida,iminentemente política, é apartidária.
Seja como for, há uma grande problema, teórico, em impulsionar a luta dos desempregados dentro do movimento sindical. É notório as contradições existentes entre os próprios trabalhadores, os que ainda trabalham e os que ficaram sem emprego. Na verdade a chamada luta ainda não está pronta para absorver esses dois sectores, ao passo que vai havendo condições para criar novas frentes de combate onde actuem às duas. A primeira dinamizada, essencialmente por comunistas e sindicalistas no sentido de manter a rua, a segunda dinamizada por bloquistas com intuito de crescer na rua. Seria bom que este protesto lançasse sementes para um futuro, e sério, entendimento.

Ao contrário do que se escreve esta semana no Avante!, «ingénuo é todo aquele que escrevendo um texto no seu blog, ou no seu mural do facebook, acredita ter enviado uma mensagem a milhões», na verdade a internet permite, efectivamente, lançar mensagem a milhões, o que deve ser questionável não é a a recepção da mensagem mas sim como essa é, se o for, digerida pelo receptor.

11 de Março de 1975

A manhã do 11 de Março de 1975 entra para história com as imagens da RTP a captar o diálogo entre Dinis de Almeida com os oficiais dos pará-quedistas de Tancos. O primeiro estava cercado pelos segundos, depois do seu Regimento (RAL 1) ter sofrido um raide aéreo oriundo da Base Aérea n.º3. Entretanto António Spínola lança charme a vários oficiais do exército para aderirem ao golpe (entre eles Salgueiro Maia, que recusa), em resposta a Intersindical apela a mobilização dos trabalhadores a agir. O golpe estava na rua.
Depois de almoço António Spínola e uma dezena de oficiais seus aliados entram num helicóptero rumo a base aérea espanhola. Era a fuga possível, perante a derrota auto-forçada.

A tentativa de golpe, propiciada por Spínola e spinolistas, é, acima de tudo, a grande tentativa de travar o rumo das coisas, de alterar a correlação de forças que estava, drasticamente, a tombar para a esquerda militar e política. Ironicamente, o resultado é totalmente contrário ao pretendido. No 11 de Março há uma irremediável imprudência da aula spinolista, que não consegue interpretar bem os sinais da altura.

Num contexto profundamente agitado e de um desmedido clima revolucionário, a aula militar spinolista consegue aprovar, na EPC, uma moção de desconfiança à Coordenadora do MFA, posta de imediata a circular entre outras unidades do país. De imediato o número de adesões à moção é considerável. No entanto, o êxtase ocorre com a publicação da famosa «matança da Páscoa». Aparentemente 500 oficiais e mil civis afectos ao General Spínola estavam para serem mortos pelo PCP e outros sectores marxistas. Perante esta informação, que terá sido divulgada pelos serviços secretos franquistas, o general Spínola farto do fracasso das tentativas legais, (golpe Palma Carlos; 28 de Setembro), de circunscrever os seus inimigos, tenta tomar o poder através de um golpe.

Portanto, se de manhã há nevoeiro, depois do almoço há já uma certa tranquilidade, acabando o dia com uma agitada reunião do MFA, onde é pedido, inclusive, fuzilamentos. Contudo, é de reter que desta reunião, dialecticamente ligada aos acontecimentos matinais desse dia, emerge:
  • Conselho da Revolução;
  • é imposto um amplo programa de nacionalizações;
  • reforma agrária no sul do país;
  • institucionalização do MFA;
  • Intersindical é confirmada como central única;
  • PCP-ML, AOC e MRPP são proibidos;
  • é criado um tribunal revolucionário para julgar os implicados no 11 de Março;
  • o Conselhos de Armas (dominado por oficiais spinolistas), o Conselho de Estado e a Junta de Salvação Nacional são extintas.

O 11 de Março de 1975, é a prova já bastante provada na altura, que o General Spínola podia ser um excelente militar, no entanto, tinha uma fraca/nula visão política e, sobretudo, de análise do momento.
É um acontecimento que não deve ser encarado como uma singularidade, mas sim como um traço comum da revolução dos Cravos
.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

1º Encontro BII do CEHC-IUL

1 de Março de 2011 14H30 ISCTE-IUL, Aud. Afonso de Barros. ‏
A entrada é livre e aberto ao público.












«Perspectivas parlamentares sobre o mundo do trabalho industrial português no Vintismo».
João Lázaro

Resumo: O leitor mais atento não deixa de reparar que a historiografia que tem vindo a tratar a história da classe operária portuguesa canaliza a sua atenção para o período posterior a 1834 ou, principalmente, aos anos 50 durante a Regeneração. Deste modo, há um vazio no que diz respeito ao estudo dos operários e dos olhares de que são objecto nos primórdios do liberalismo português. Este estudo esforça-se para deslindar os usos do termo operário no discurso parlamentar, bem como a forma como esse termo era interpretado, absorvido e direccionado pelos deputados vintistas.

«O "Nacionalismo" de Spínola: O "Voz da Guiné" como forma ambivalente do discurso de legitimação colonial (1972-73)».
Cláudio Santos

Resumo: A passagem de António de Spínola pela Guiné entre 1968 e 1973 na qualidade de Governador Geral e Comandante-Chefe deixou marcas incontornáveis no discurso de legitimação colonial. A sua “acção psico-social”, que assumiu a sua forma discursiva em “Por uma Guiné Melhor”, será analisada a partir do Voz da Guiné, jornal oficial do Governo colonial sediado em Bissau. Na medida em que este constitui uma das formas de propaganda contra-subversiva em relação ao discurso nacionalista do PAIGC, de influência sobre os estratos base do constituinte guineense, analisar-se-á essencialmente as estratégias de adaptação do discurso de legitimação colonial, não só por dialéctica em relação ao PAIGC, mas também por via dos efeitos que a própria
democratização e descentralização (pré-paradigmatização do federalismo) defendidas por Spínola têm no mesmo. Este tipo de autonomia desemboca em formas discursivas proto-paradigmáticas que se assemelham às de nacionalismo. O jornal será assim analisado a partir de algumas noções teóricas contemporâneas sobre Nacionalismo e Etnicidade.

«A alteração do espaço público em finais da monarquia. Os casos dos municípios de Cascais e Belém».
Miguel Figueiredo Padeira

Resumo: Após o advento liberal há uma efectiva alteração da estrutura municipal ao longo de todo o território português, não apenas no seu figurino espacial, mas também e sobretudo no comportamental. Com a sucessão de vários códigos administrativos, há uma maior sensibilização das novas autoridades camarárias na uniformização das posturas dos seus munícipes, catapultando o poder local para um crescimento e progresso mais regular, tendo em conta a sua própria realidade. Os municípios de Cascais e Belém comprovam este paradigma, que apesar de propósitos e actores dissemelhantes, vêem o seu espaço público modificado.


«Uma nova luz sobre a Lei da Vadiagem – legalismo e exclusão no alvorecer da República».
Hugo Sousa Nunes

Resumo: A Lei da Vadiagem, publicada em 1912 é considerada um marco na produção legal sobre a questão da marginalidade. A viragem para o século XX encontra um crescente espaço de importância para o vadio, cuja figura se complexifica em termos políticos e jurídicos. A historiografia tem procurado integrar esta problemática em torno da afirmação de um discurso de repressão por parte do Estado. Nesse sentido, a Lei de 20 de Julho de 1912 é geralmente tomada como ponto de chegada no âmbito desse processo. Tomando esta Lei como base de reflexão, procurar-se-á romper com as limitações do tradicional binómio prevenção/repressão. Incide-se uma nova luz sobre este texto, tomando-o no quadro da exclusão enquanto processo, mas procurando também a sua relativização ao contexto do início da República, enquanto espaço que se abre a um confronto de poderes.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Da inquietação do 25 de Novembro, às inquietações do tempo futuro?

«Se queremos encontrar um centro no processo», afirma António Telo (Portugal Contemporâneo, p. 96), «ele foi o MFA e não o PCP» . No entanto, este autor não deixa de entrar em certa contradição, ao denominar o período balizado entre o 11 de Março até ao 25 de Novembro de: «deriva comunista». Há haver uma «deriva», ela é uma deriva ideológica no interior do MFA e não, somente, comunista. A tese da «deriva comunista» implica dar demasiada ênfase ao projecto afecto ao PCP, tirando, por seu turno, a devida importância ao MFA e aos moderados. Os Capitães de Abril acabariam por ser também Capitães de Novembro, no entanto se no primeiro mês estavam unidos numa batalha conjunta, em Novembro acabam por se confrontar entre si, originando respectivamente um grupo de vencidos e de vencedores. É, efectivamente, importante uma análise ideológica aos militares que conduziam o destino do país nessa época. Claro está, que o MFA era pouco politizado desde dos seus primórdios, — havendo poucos militares politizados como Vasco Gonçalves e Melo Antunes —, tem sido um defeito da historiografia em não acentuar a deriva ideológica do MFA ao longo do processo. Tomemos o exemplo de Pinheiro de Azevedo e Morais da Silva, estes militares rapidamente movem-se do sector gonçalvista para o sector moderado, havendo ainda exemplos de militares da área de Spínola, — como Otelo Saraiva de Carvalho e Carlos Fabião —, que abraçam ou pactuam com a extrema-esquerda. Alguns dos militares da aérea do PCP revelam autonomia face ao partido, acabando, por exemplo, apelar ao voto em branco nas eleições (Almirante Rosa Coutinho), e outros desabafaram as interferências do partido. Há militares, conectados com o PCP, que no 25 de Novembro tomam posições contrárias à do partido, pois numa altura que o Comité Central assumia que se tinha avançado velozmente e a revolução estava ameaçada, sendo vital negociar uma retirada sem perder o essencial, militares como Duran Clemente e Diniz de Almeida pronunciavam-se a favor da distribuição de armas aos trabalhadores. O decisivo comportamento dos pára-quedistas de Tancos ao longo do processo é, em si, um outro exemplo da fraca politização dos militares. A esta luz, fica visível que a ideologia dentro do MFA tinha um sentido muito lato, que com a publicação de vários documentos, produzidos por militares do MFA, originará a implosão da unidade no MFA.

Em suma, é imperativo estudar as várias trajectórias contrárias dentro do MFA, e de que forma se estendiam à sociedade civil e aos partidos políticos. No entanto, é necessário ter em conta que a instrumentalização dos militares do MFA por parte dos partidos políticos é algo labiríntico, pois na prática a ideia de que os gonçalvistas seriam todos controlados pelo PCP e os moderados pelo PS/PSD, é uma ideia limitada, inclusive diversas vezes esses sectores militares mostravam repulsa pela interferência partidária. É de crer que os militares tinham, verdadeiramente, projectos para o país.

Em relação à análise da suposta Guerra Civil, o factor psicológico da camaradagem/amizade, que, todavia, nunca deixou de haver entre as chefias do MFA, não é ainda devidamente salientado. Dificilmente os militares que tinham combatido ombro a ombro durante anos no Ultramar, e que tinham conjuntamente arriscado a sua carreira e vida na concretização da operação «Fim Regime», pegariam em armas para aniquilar militares seus conhecidos para tomar o poder. Por exemplo, o telefonema que Melo Antunes terá feito para Otelo pouco antes do 25 de Novembro, o convívio entre Otelo de Saraiva com Jaime Neves na hora da prisão do primeiro e amizade entre Vasco Lourenço e Otelo são elucidativos da intimidade/delicadeza existente no MFA. O discurso de uma Guerra Civil foi um tema bastante politizado e propagandeado pelos partidos, nomeadamente os que dominavam eleitoralmente, cuja a historiografia ainda não conseguiu deslindar. Na conjuntura conflituosa havia espaço para as demonstrações de força, no entanto transformar tais demonstrações numa possível Guerra Civil não era objectivo.

O 25 de Novembro continua a ser, porventura, o episódio mais nebuloso da história recente de Portugal. Ao contrário do outro 25 — o de Abril — este, o de Novembro, marca o início do fim do apogeu dos movimentos sociais, da presença das FA´s no quotidiano civil, e de uma certa forma de cidadania. Com efeito, o fim de uma época. Mesmo, sendo um facto que o 25 de Novembro não perfaz o fim do objectivo socialista para o país, sendo inclusive, aprovada uma Constituição progressista embebida no espírito do PREC, que consagra uma Reforma Agrária, um Concelho da Revolução e as nacionalizações como irreversíveis, na verdade é que desde daí tem havido somente retrocessos. No fundo, o processo revolucionário português contêm uma singularidade fundamental para a compreensão do processo, que tem escapado à historiografia; o facto de se ter tentado fazer uma revolução sem revolucionários.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Reflexão acerca do próximo jantar de uma família desavinda

O Partido Socialista irá a este congresso declarar a continuidade dos cuidados paliativos e quase todo o aparelho tem essa consciência. E como num qualquer hospital, diferentes são os pensamentos dos que se abeiram à cama do enfermo: uns, chorosos, vêem o seu projecto a ruir, o Socialismo tão moderno que criaram deslumbrou-se com o ritmo alucinante dos novos tempos, a tal ponto que ainda ontem saiu da maternidade e já hoje está a um suspiro da morgue. Estes estão inconsoláveis e certos do fim próximo do seu ente querido, mas acenam afirmativamente perante a introdução dos químicos, que lhe adiam a morte. Outros, os que por ele quase haviam sido proscritos e deixados fora dos almoços e dos jantares de família, olham maliciosamente para o seu travesseiro, pensando o quão fácil seria pressioná-lo contra a face do moribundo e prazerosamente contemplar a sua agonia. Pensam, pensam, mas não o executam. Tal acto suscitaria mal estar entre a família e eles querem regressar ao seu convívio brevemente. Em boa verdade, até aguardam por um fim mais faustoso: muitos espasmos, alguns jorros de sangue, demorados revirar de olhos, em suma, vis manifestações da derradeira hora, com as quais uma prematura almofada não se compadece. Assim, estes esperarão, não pacífica, mas avidamente, a vaticinada chegada do anjo da morte, seja ele Vitorino, Costa, Seguro ou até a sua mais sagrada representação, Maria, não a virgem, que tem já muitas beatas imprecações, mas uma outra, ou outro, que se apresta na sua filosófica torre de marfim. Assim gostaria esta ala da família, mas não parece que Deus, seja ele quem seja no partido do agnosticismo, o tome por seu emissário. Tal não prognosticam os oráculos dos canais de notícias e eu partilho do seu cepticismo. Deus poderá ser omnisciente, omnipresente e omnipotente – mas é sobretudo previsível.
Estes são parentes desavindos, é certo, mas comungam da mesma crença: a morfina que hoje aceitam não mais fará do que prolongar uma letargia a qualquer momento sentenciada. Por quem? Não ouso dizer o seu nome, esse meu acto conspurcá-lo-ia. Sou um mortal e não me está reservado o privilégio de designar uma entidade supra-divina, sumamente honesta e supremamente conhecedora. Sendo assim, retiro-me, não sem antes recordar que, se os Deuses não dormem, o que será de esperar de tão sublime ser? Vigília constante, receio ser a resposta.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A (in)substância da sociedade contemporânea, ou a maldita trinca

(Elaborado na sequência de um trabalho proposto na disciplina de Português, subordinado ao tema: A importância da aparência na sociedade contemporânea)

A relação obsessivo-compulsiva que as sociedades modernas desenvolvem face à imagem, não é, convenhamos, um fenómeno característico da época contemporânea. Em verdade, ainda não eram sentidos os tumultos premonitórios da revolução francesa, e já no séc. XIII, D. Diniz, a fim de saciar a sua inquebrantável libido, se envolvia em casos demasiado voluptuosos para a contenção exigida ao emissário secular de deus na Terra.

Consumado que está o carácter não epocal da aparência, a pergunta a que urge responder é a seguinte: "Qual é, então, a origem da aparência enquanto variável sociológica?". Poderia sustentar a minha resposta em pareceres científicos, argumentando, quiçá, que uma dada inexorabilidade genética condiciona de tal forma a temperança humana que psicologicamente todos tenderíamos para a hipocrisia. Contudo considero a demonstração científica assaz insípida, visto não ser susceptível de contra-argumentação. Em conformidade, ajuizei pela enunciação da mais credível das obras no que toca a ancestralidade humana, ou seja, a Bíblia. Se dúvidas prevalecerem acerca da fidelidade factual das cenas narradas, solicito-vos que atentem na tiragem da mesma, que, como podem constatar, tem um sucesso mundial homólogo ao que o livro "Eu, Carolina" obteve em Portugal, o que, só por si, adensa a sua já elevada veracidade histórica. Remontemos aos vicejantes jardins do éden: Adão e Eva, talhados à semelhança de Deus, personificam o que de mais lapidar e impoluto se pode conceber. Eis senão quando Eva, tentada pela ardilosa cobra, trinca a maçã. Então, a luz se fez treva, e Adão e Eva foram expulsos do paraíso, já espoliados da sua candura primordial. O que tem isto que ver com a aparência? De facto, o culto da aparência mais não é do que a cruzada empreendida pelo Homem contra as compulsões naturais advenientes dessa mesma proscrição, jamais se conformando com as imperfeições que o seu próprio conceito veio a conglobar.

A título ilustrativo, debrucemo-nos em duas impulsões básicas do Homem: comer e procriar. No que ao acto de comer concerne, há muito que não é considerado um mero acto de subsistência. Na verdade, este conceito foi de tal modo mitificado que se gerou uma arte, a culinária, para dissimular este laivo de animalidade. Quanto à procriação, a fim de nos demarcarmos da irracionalidade animal, edificámos um sentimento, o amor, cuja máxima expressão material seria o acto sexual.

À luz do ideal religioso, o Homem celestial não era assaltado por sentimentos tão promíscuos como a inveja ou o ódio. Assim aflorou a hipocrisia, como método universal de resposta a todos eles.

Em função de tudo o que foi anteriormente mencionado, qualquer cidadão renega à diferença, pelo temor que esta lhe inspira. Àquele que ousar romper com a harmónica engrenagem social, ser-lhe-á imputada a culpa de violar os valores estruturais da sociedade. No fundo, será acusado de blasfemar, por evidenciar os apanágios menos abonatórios da raça humana.

Em reflexo, o Homem tende a reger-se por uma moral heterónoma, que se caracteriza pela delegação da responsabilidade das atitudes dos indivíduos em outrem. Com efeito, ao não transgredirmos o excesso de velocidade num troço rodoviário, executamo-lo, não por sensatez, mas por receio de nos afastarmos do padrão pré-institucionalizado e, consequentemente, pelo receio de sermos sancionados.

Após toda esta exposição, a pergunta que teima em irromper é "Se as sociedades criaram mecanismos que afiançam a aparência e, como efeito subsequente, a harmonia, por que é que o equilíbrio social não é incólume, à semelhança do paraíso?". A resposta reside na variável que distingue os conceitos de ser e parecer: o tempo. O ser é, por definição, perene, absoluto e indelével. Ao passo que o parecer é temporário, relativo e ilidível.

Vejamos, transpondo para a dinâmica real, a parábola do emigrante pródigo que, quando regressa à sua pátria, porfia em dialogar na língua do país para o qual emigrou. Todavia, em momentos de maior exaltação, não atípico é verificarmos que praguejam na sua língua de origem. Outro exemplo é a actual relação contenciosa encetada pela igreja católica contra Saramago. A igreja, enquanto instituição eclesiástica defensora da liberdade e fraternidade, esconjura o novo livro de Saramago, tão só pelo facto de este não se alinhar ideologicamente com os dogmas da mesma. Depreendemos, de novo, que a aparência só prevalece até que uma premissa exógena desperte a nossa alavanca nuclear, o instinto, que, fugazmente, de nós se apossa, retirando-nos o diáfano véu que nos cobre.


 

Façamos, então, um derradeiro encadeamento lógico:

A aparência é produto da religião.

A religião é o reflexo das frustrações do Homem.

A aparência é o reflexo das frustrações do Homem.


 

Posto isto, a aparência é a alfaia pelo homem escolhida, para dissimular a sua verdadeira essência. A bem dizer, é a expressão inequívoca de uma espécie que não se resigna com as características que lhe foram ofertadas pela evolução natural.

Infelizmente, não mais somos do que aqueles intelectuais que, vendo defraudadas as suas aspirações académicas, fumam cigarrilha, bebem whisky e assistem a ciclos de cinema europeu, com vista a tentar merecer tal designação.


 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Revistas cor-de-rosa, Cristiano Ronaldo e IKEA

Caros leitores, tenho-vos a confessar que um horrível costume que me persegue e atormenta: uma inveterada fé nas colunas sociais, que pontuam como constelações as papelarias da nossa praça. Há nessas revistas algo que me inspira uma crença desmedida… Talvez as mui veneráveis senhoras que se apresentam perplexas com o paparazzi, que em monetário conluio com as mesmas, se apresta por entre um arbusto frondoso, elemento aliás impreterível no cenário cor-de-rosa; talvez as mui veneráveis famílias cujo melódico nome rivalizaria, em extensão, com o mais completo dos catecismos bíblicos. Em extensão, acentue-se, porque a Jesus, Judas ou Abel ainda lhes reconheço o mérito de serem internacionalmente reverenciados ou censurados, ao passo que a estas famílias ninguém conhece, excepção feita às pulgas, que sorvem o sangue aos cavalos da sua herdade, estábulo de tão ínclita linhagem; talvez os míseros seres que prostituem a sua biografia, tão chocante e promíscua como lucrativa, que alimenta uma verborreia proferida e redigida com uma solenidade de quem analisa as fortunas e dissabores de uma figura histórica; talvez…

Basta! Tenho que pôr termo a este meu insanável atributo de esgrimir tantos elogios de uma só vez. Com tanto mel vertido da minha boca, um dia mordo a língua e sou tomado por uma crise de diabetes. E, em verdade, o assunto que me leva a escrever é Cristiano Ronaldo. Por favor, absolvam-me das vossas críticas… Eu sei, eu sei, pareço o tio Paulinho, que, quando a matéria política escasseia, fala dos "indigentes" e sempre "preguiçosos" recebedores do rendimento mínimo, obtendo de imediato uma ascensão exponencial nas sondagens. Mas, convenha-se, Cristiano Ronaldo é o bastião da actualidade – mais do que o normal, entenda-se.

Cristiano Ronaldo teve um filho!!! Uau!!!! – tenho que me socorrer mais vezes de interjeições, tem piada. E então? Salvo o facto de suavizar as consternações de Cavaco Silva quanto à taxa de natalidade, em nada se demarca da realidade de outros tantos milhões de portugueses. Mas quando o visado é Ronaldo, até o mais singelo dos temas se intrinca.

O Primeiro tema sobre o qual a imprensa cor-de-rosa se debruçou foi o modus operandi da concepção, alcançando-se a unânime resolução da reprodução medicamente assistida. Há muito que estas "provetices" não despeitam ninguém e, atendendo à já manifestada via celibatária de Cristiano Ronaldo, em nada esta revelação melindrou a minha inabalável fé na imprensa cor-de-rosa. Com o segundo tema foi diferente… Neste, a mesma imprensa aventa um alucinante número de possíveis mães. Será moda porventura? É plausível. Hoje nada se executa sem a aprovação prévia de uma equipa multidisciplinar. Porém será uma razão suficiente? Eu cuidei que não. Invoquei então o engenho dos velhos sábios das C.C.F.E.J. (Crenças Claramente Falsas Estupidamente Justificadas), organização composta por todos aqueles que asseguram a existência de uma sociedade secreta, controladora do mundo, presidida por personalidades, tais como Kennedy, Elvis ou Marilyn Monroe. De imediato considerei que a minha crença na imprensa cor-de-rosa se revia nesta frente, preteri as evidências científicas, e formulei a minha teoria. Efectivamente, pensei, nada havia de falso na vasta colecção maternal do venturoso rebento, pelo contrário, tudo resultava de uma campanha publicitária do IKEA, protagonizada por CR7. O filho do craque foi desmultiplicado por vários ventres, parido em fragmentos, unidos em casa pela mão de Cristiano Ronaldo. Já antevejo os contornos do próximo segmento da campanha publicitária: Cristiano Ronaldo, em casa, sorriso rasgado, unindo a cabeça ao tronco do bebé, e dizendo (dezendo, segundo Ronaldo): " IKEA, construa você mesmo".

Mistério desvendado, fé renovada. Vou-me deitar, é tarde.

Post-scriptum: No fim da frase, Ronaldo cuspiu. Este contestou, não lhe apetecia, mas foi uma exigência da marca. Pretendiam que Ronaldo deixasse o seu cunho pessoal, para dissipar especulações de que seria um sósia. Afinal, há quem o supere a jogar futebol, mas ninguém cospe como Ronaldo.