Na minha óptica pretende-se com este protesto exportar o modelo que desencadeou as revoluções no norte de África, numa realidade totalmente distinta da magrebina, como é a portuguesa.
Neste ponto é importante desmistificar as redes sociais. As revoltas que tem ocorridos no norte de África, que agora alastram-se um pouco por todo mundo árabe, foram antes de tudo desencadeadas pela realidade social: forte desemprego numa sociedade fortemente jovem; más condições de vida; a alta corrupção; a exploração; tirania; repressão etc. Em alguns casos até pelo facto de uma ampla maioria xiita ser governada com mão-de-ferro por uma minoria sunita. Estes, de grosso modo, foram os pressupostos vitais para a maré de revolta, no entanto, claro está, que o rastilho foi as redes sociais, pois por algum motivo é que os governos desses países rapidamente decidem proibir o acesso a internet. O caso do Egipto e da Tunísia são gritante, no entanto, apesar da imagem que a comunicação social ocidental construiu de protestes assente nas redes sociais, é importante dizer que no caso da Tunísia, onde tudo começou, o movimento sindical foi, deveras, importante. É ingénuo pensar que os agentes da autoridade aderiram aos protestes com um invento criado no facebook, bem como o próprio exército. As redes sociais foram importantes, todavia, os protestos e estas revoluções não são nada espontâneas, mas sim criadas por um ambiente social concreto, onde o espírito de indignação do ser humano soltou-se. Em suma, as redes sociais foram uma, das muitas ferramentas, para a libertação.
No caso português a comunicação social, pelo menos a que tenho visto, dá grande apoio e visibilidade ao protesto, Geração à Rasca, convocado por facebook, acabando desse modo por alguma espontaneidade. Contudo, quero aqui salientar que a mesma comunicação social não para de dizer que a adesão ao protesto cresce a bom ritmo, estando confirmado mais de 40 mil pessoas. No entanto, causa estranheza o facto da mesma não focar que já mais de 70 mil pessoas disseram que não iam estar presentes na manifestação, cerca de 30 mil meteram um "talvez", e que a dois dias do protesto ainda estão por responder cerca de 400 mil pessoas. Portanto, equancionando o potência da internet e das redes sociais que nos tem vendido nos últimos dias com as confirmações para o protesto, não podemos deixar de concluir que o protesto, porventura, não terá os resultados desejados. Outra crítica à comunicação social é o facto de há anos que se realiza manifestações sindicais e de certos partidos, nomeadamente o PCP, com mais de 60 mil pessoas e umas até com 200 mil pessoas, e o protagonismo que levam na comunicação social é frouxo.
Mesmo tendo estas reservas teóricas sobre a importância das redes sociais, concordo com os motivos do protesto, como carrego um estigma de comunista terei aqui deixar umas notas.
Acho que o meio sindical e o PCP olha para este protesto com grandes reservas, pois tal foge ao seu controlo, e é dinamizado por muitos militantes do Bloco de Esquerda, aliás, o BE já confirmou presença no protesto. No entanto, apesar das reservas o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, recentemente afirmou que o partido vai estar na manifestação, tendo sido inclusive convidado a participar. O PCP não mobiliza, mas participa. Mas mais importante ainda, parece-me que o pano do apartidarismo cai, pois nada nesta vida,iminentemente política, é apartidária.
Ao contrário do que se escreve esta semana no Avante!, «ingénuo é todo aquele que escrevendo um texto no seu blog, ou no seu mural do facebook, acredita ter enviado uma mensagem a milhões», na verdade a internet permite, efectivamente, lançar mensagem a milhões, o que deve ser questionável não é a a recepção da mensagem mas sim como essa é, se o for, digerida pelo receptor.

